30/11/2017

Crianças sorriem lado a lado

Elas começaram a nascer no mesmo ano em que o iPad foi lançado, em que o Instagram foi criado e em que app foi eleita a palavra do ano. Isso diz muito sobre as crianças da geração Alpha, composta pelas pessoas que nasceram de 2010 até hoje e as que ainda virão até 2025.

De acordo com o pesquisador australiano Mark McCrindle, responsável pela definição do termo, essa geração será a mais tecnológica de todas, uma vez que as crianças já nascem imersas em diversos estímulos e têm acesso a diferentes ferramentas de tecnologia.

A geração também será a mais educada formalmente da história, o que leva a uma reflexão sobre a capacitação dos profissionais e instituições de educação para lidar com esse novo público.

"A inclusão da tecnologia no ambiente escolar ainda precisa ser muito bem discutida e trabalhada. Vejo professores inseguros ao utilizarem esse recurso ou inserindo de forma equivocada para as situações de ensino-aprendizagem", alerta Tamires Alves Monteiro, professora da pós-graduação Educação Infantil do Senac EAD. "Por exemplo, em algumas creches vemos bebês e crianças passando muito tempo em frente à TV sem uma proposta pedagógica clara ou planejada", completa.

É possível que esse cenário ainda seja um reflexo de ações adotadas em décadas anteriores, quando a educação infantil era associada apenas ao cuidado relacionado a necessidades básicas, como a alimentação e higiene das crianças, sem refletir sobre a qualidade e diversidade das ações realizadas nesse importante período de desenvolvimento do ser.

"Essa é a primeira etapa da educação básica. Será por meio desse nível de ensino que o bebê e a criança terão acesso a um novo mundo social, com configurações diferentes do que estão habituados e com novos desafios. A escola deve auxiliar nesse processo por meio do brincar e das trocas sociais com os pares e com outros adultos fora do seu núcleo familiar", diz Tamires.

Por isso, a instituição escolar deve ser um ambiente preparado pedagogicamente para receber e trabalhar com esse público, promovendo situações de aprendizagem que os ajudarão a se desenvolverem dos pontos de vista cognitivo, afetivo, moral e social, de maneira alinhada às necessidades e realidades específicas a cada geração.

Crianças conectadas
A habilidade e naturalidade dos alphas com os recursos tecnológicos podem ser notados antes mesmo de seus primeiros passos ou primeiras palavras, resultado do estímulo contínuo no qual estão inseridos.

De acordo com especialistas, essa imersão faz com que essa geração seja mais curiosa, original e capaz de encontrar soluções. Em contrapartida, ainda há muita discussão a respeito dos efeitos dessa grande oferta de informação.

"Muitos estímulos, conteúdos e sensações podem opor quantidade à qualidade, fazendo com que muitas crianças não estejam mais atentas aos detalhes. Isso é vital para a transformação do dado em informação e da informação em conhecimento, já que esse processo todo demanda foco e concentração", afirma Caio Augusto Carvalho Alves, responsável pela coordenação do curso Licenciatura em Pedagogia do Senac EAD.

Ele destaca que já há um consenso entre profissionais da área de que proporcionar momentos com estímulos reduzidos, afastado de luzes, cores e movimentos que os gadgets oferecem, pode ser igualmente benéfico ao desenvolvimento das crianças. Isso porque são nesses momentos em que a criança pode se atentar a detalhes, aos sons baixos, às variações sutis de tonalidades e ao que merece mais empenho para ser sentido.

Tamires concorda sobre o valor da inclusão de diferentes elementos no cotidiano dos alphas. "Tem sido um desafio lidar com crianças tão dinâmicas e super interessadas nas tecnologias. No entanto, não podemos esquecer que apesar da geração a qual pertencem, não deixam de ser crianças. Por isso, é importante que elas tenham contatos com outros brinquedos e brincadeiras, que tenham tempo livre para outras atividades", diz.

Para ambos, recursos como TVs, computadores, videogames e tablets não devem ser vistos como vilões da aprendizagem e do desenvolvimento, mas como ferramentas para serem também trabalhadas dentro do ambiente escolar de maneira equilibrada e estratégica.

"É muito comum ver gestores educacionais percebendo as novas tecnologias como um remédio que irá curar os problemas de aprendizagem. Esse é um processo complexo que se não for pensando a partir de bases fundamentadas, podem acabar por transformar gadgets em novos quadros negros, mudando apenas os instrumentos de ensino, mas reproduzindo a mesma lógica tradicional e antiga do ensino tradicional", alerta Caio.

Desafios além da tecnologia
A tecnologia não é a única característica marcante dessa nova geração. As crianças desse período também estão inseridas em configurações familiares diversas e em relações mais horizontais entre pais e filhos, sem a autoridade excessiva e falta de diálogo das gerações anteriores.

Especialistas ainda apontam que a geração Alpha será a primeira a presenciar um novo sistema escolar, que estimula o protagonismo dos alunos e valoriza as diferenças.

Entretanto, Tamires observa uma insegurança e despreparo na formação prática e teórica dos profissionais em relação ao tema inclusão, seja em questão de gênero, deficiências físicas, transtornos, etnias, entre outros.

Outro desafio é pensar nas propostas educacionais a partir da reflexão sobre as mudanças vivenciadas mundialmente, em que muitos autores indicam uma crise da globalização, assim como a ascensão de grupos extremistas e fundamentalistas.

"Nesse novo mundo que se configura, o que será valorizado? Como ensinar crianças em um mundo que se divide após uma era de intensa inter-relação e comunicação? Essas são questões que influenciam a aprendizagem das novas gerações, tanto quanto a oferta de novas tecnologias", afirma Caio. 

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